Reencontro com a Biblia
terça-feira, 24 de fevereiro de 2015
sábado, 21 de fevereiro de 2015
O que é o Arminianismo?
1.O que é o Arminianismo?
A posição de Jacob Armínio (1560-1609) e
seus seguidores – frequentemente conhecidos como remonstrantes – quanto à
graça, o livre-arbítrio, à predestinação e à perseverança dos crentes.
Armínio era um teólogo calvinista holandês que, em todos aqueles pontos
nos quais a tradição reformada diferia da católica ou da luterana,
continuou sendo calvinista. É importante recordar isso, visto que
frequentemente se diz que o arminianismo é o contrário do calvinisrno,
quando na realidade tanto Arrnínio como seus seguidores eram calvinistas
em todos os pontos, exceto nos que debatiam. Além disso, é necessário
notar que o debate envolvia também o interesse de um dos grupos em
sublinhar o calvinismo estrito a fim de salvaguardar a independência
recentemente conquistada do país, enquanto que o outro buscava posições
que tornassem mais fácil para o país comercializar com outros que não
fossem estritamente calvinistas. Em parte, por essa razão, os
calvinistas estritos fundamentavam seus argumentos sobre as Escrituras, e
o princípio da justificação só pela graça, construindo sobre isso um
sistema rigidamente lógico e racional, enquanto seus opositores
desenvolveram argumentos igualmente coerentes fundamentados sobre os
princípios geralmente aceitos da religião – razão pela qual em certo
modo foram precursores do racionalismo.
Armínio envolveu-se em um debate quando
resolveu refutar as opiniões daqueles que rejeitavam a doutrina
calvinista estrita da predestinação. Mas então se convenceu de que eram
eles que tinham razão, e se tornou o principal defensor dessa posição.
Os calvinistas estritos que se opuseram a ele e que mais tarde
condenaram seus ensinamentos eram supralapsarianos. Sustentavam que Deus
havia decretado antes de tudo a eleição de alguns e a reprovação de
outros, e depois havia decretado a queda e suas consequências, de tal
modo que o decreto inicial da eleição e reprovação pudesse ser cumprido.
Também sustentavam que as consequências da queda são tais que toda a
natureza humana está totalmente depravada, e que o decreto da
predestinação é tal que Cristo morreu unicamente pelos eleitos, e não
por toda a humanidade. Em princípio, Armínio tratou de responder a essas
opiniões adotando uma posição infralapsariana; mas logo se convenceu de
que isso não bastava. Criticou então seus adversários argumentando, em
primeiro lugar, que sua discussão dos decretos da predestinação não era
suficientemente cristocêntrica, visto que o verdadeiro grande decreto da
predestinação é aquele “pelo qual Cristo foi destacado por Deus para
ser o salvador, a cabeça e o fundamento daqueles que herdarão a
salvação”; e, em segundo lugar, que a predestinação dos fiéis por parte
de Deus baseia-se em sua presciência de sua fé futura.
Visto que a doutrina da predestinação de
seus opositores se fundamenta na primazia da graça, e de uma graça
irresistivel, Armínio respondeu propondo uma graça “preveniente” ou
“preventiva”, que Deus dá a todos, e que os capacita para aceitar a
graça salvadora se assim decidirem. E, visto que a graça não é
irresistivel, isso implica que é possível um crente, mesmo depois de
haver recebido a graça salvadora, cair dela. Foi contra todas essas
propostas dos arminianos que o Sínodo de Dordrecht, ou de Dort (1618-19)
afirmou os cinco pontos principais do calvinismo estrito, a depravação
total da humanidade, a eleição incondicional, a expiação limitada por
parte de Cristo, a graça irresistivel, e perseverança dos fiéis.
As teorias de Armínio foram adotadas por
vários teólogos de tradição reformada que não estavam dispostos a levar
seu calvinismo às consequências que Dordrecht as havia levado. O mais
destacado entre eles foi João Wesley (1703-91). Entre os batistas
ingleses, aqueles que aceitaram o arminianismo receberam o nome de
“batistas gerais”, porque insistiam que Cristo morreu por todos,
enquanto que aqueles que ensinavam a expiação limitada foram chamados
“batistas particulares”.
Justo L. González, Breve Dicionário de Teologia, p. 46, 47
2.Quem foi Jacob Armínio?
Um teólogo holandês. Arminius nasceu em
Oudewater (18 m. em direção ao leste e nordeste de Roterdã) em 10 de
outubro de 1560 e morreu em Leiden em 19 de outubro de 1609. Após a
morte prematura de seu pai ele foi morar com Rudolphus Snellius,
professor em Marburg. Em 1576 retornou para casa e estudou teologia em
Leiden sob Lambertus Danæus. Aqui ele passou seis anos, até que recebeu
autorização dos burgomestres de Amsterdã para continuar seus estudos em
Genebra e Basel sob Beza e Grynæus. Ele fez preleções sobre a filosofia
de Petrus Ramus e a Epístola aos Romanos. Sendo chamado de volta pelo
governo de Amsterdã, em 1588 ele foi nomeado pregador da congregação
reformada. Durante os quinze anos que passou aqui, ele obteve o respeito
de todos, mas suas concepções sofreram uma mudança. Sua exposição de Rm
7 e 9 e seu pronunciamento sobre a eleição e reprovação foram
considerados ofensas. Seu colega, erudito mas irascível, Petrus Plancius
se opôs a ele em particular. Disputas surgiram no consistório, que
temporariamente foram impedidas pelos burgomestres.
Arminius foi suspeito de heresia porque
considerava o consentimento com os livros simbólicos como não
unificadores e estava pronto a conceder ao Estado mais poder nas
questões eclesiásticas do que os rígidos calvinistas gostariam de
admitir. Quando dois dos professores da Universidade de Leiden, Junius e
Trelcatius, morreram (1602), os administradores chamaram Arminius; e
Franciscus Gomarus, o único professor de teologia vivo, protestou, mas
ficou satisfeito após uma entrevista com Arminius. O último assumiu suas
obrigações em 1603 com um discurso sobre o ofício sumo sacerdotal de
Cristo, e se tornou doutor em teologia. Mas as disputas dogmáticas foram
renovadas quando Arminius realizou palestras públicas sobre a
predestinação. Gomarus se opôs a ele e publicou outras teses. Sucedeu
uma grande agitação na universidade e os estudantes foram divididos em
dois partidos. Os ministros de Leiden e de outros locais participaram da
controvérsia, que se tornou geral. Os calvinistas queriam que a questão
fosse decidida por um sínodo geral, mas os Estados Gerais não queriam
fazê-lo. Oldenbarneveldt, o estadista liberal holandês, deu em 1608 a
ambos os oponentes oportunidade para defender suas opiniões diante da
suprema corte, e o veredicto pronunciado foi que, visto que a
controvérsia não tinha qualquer relação com os pontos principais
relativos à salvação, cada um deveria ser indulgente com o outro. Mas
Gomarus não se renderia. Até os Estados da Holanda tentaram realizar uma
reconciliação entre os dois, e em agosto de 1609, ambos os professores e
quatro ministros foram convidados para fazer novas negociações. As
deliberações foram primeiro mantidas oralmente, sendo depois continuada
por escrito, mas foram encerradas em outubro com a morte de Arminius.
Em suas Disputationes, que foram
parcialmente publicadas durante sua vida, parcialmente após sua morte, e
que incluíam toda a seção de teologia, assim como em alguns discursos e
outros escritos, Arminius clara e diretamente definiu sua posição e
expressou sua convicção. No geral estes escritos são um belo testemunho
de sua erudição e sagacidade. A doutrina da predestinação pertencia aos
ensinos fundamentais da Igreja Reformada; mas a concepção dela afirmada
por Calvino e seus partidários, Arminius não poderia adotar como sua.
Ele não queria seguir um desenvolvimento doutrinário que tornava Deus o
autor do pecado e da condenação dos homens. Ele ensinava a predestinação
condicional e atribuiu mais importância à fé. Ele não negava nem a
onipotência de Deus nem sua livre graça, mas ele considerava que era seu
dever preservar a honra de Deus, e enfatizar, baseado nas claras
expressões da Bíblia, o livre-arbítrio do homem bem como a verdade da
doutrina do pecado. Nestas coisas ele estava mais do lado de Lutero do
que de Calvino e Beza, mas não pode ser negado que ele expressou outras
opiniões que foram vigorosamente contestadas como sendo afastamentos da
confissão e do catecismo. Seus seguidores expressaram suas convicções
nos famosos cinco artigos que eles apresentaram diante dos Estados como
sua justificação. Chamados de remonstrantes, por causa destas Remonstrantiæ, eles sempre se recusaram a ser chamados de arminianos.
H. C. Rogge, em The New Schaff-Herzog Encyclopedia Of Religious Knowledge, Vol I, Editado por Samuel Macauley Jackson
Por John Wesley
(Epworth, Inglaterra, 17 de junho de 1703 — Londres, 2 de março de 1791)
1. Se alguém diz “esse homem é um arminiano”, o
efeito que estas palavras produzem nos ouvintes é o mesmo que se tivesse
dito “esse cão é raivoso”. Sentem pânico e fogem dele a toda
velocidade, e não se deteriam a menos que seja para atirar pedras no
temível e perigoso animal.2. Quanto mais incompreensível é a palavra,
melhor. As pessoas que recebem esta designação não sabem o que fazer:
como não sabem o que quer dizer, não estão em condições de se defenderem
ou de demonstrar que são inocentes das acusações contrárias. Não é
fácil acabar com preconceitos enraizados em pessoas que não sabem outra
coisa, exceto que se trata de “algo muito ruim” ou de algo que
representa “todo o mau”.3. Portanto, esclarecer o significado desta
terminologia pode ser útil para muitos. Aos que com demasiada facilidade
aplicam o termo aos outros, para impedir que utilizem termos cujo
significado desconhecem; aos ouvintes, para que não sejam enganados por
pessoas que não sabem o que dizem; e aqueles que recebem a designação de
“arminianos”, para que saibam como se defender.
4. Em primeiro lugar, creio ser necessário esclarecer que muitos
confundem “arminiano” com “ariano”. Porém, trata-se de algo
completamente diferente; não há semelhança entre um e outro. Um ariano é
alguém que nega a divindade de Cristo. Creio que não há necessidade de
esclarecer que nos referimos a sua filiação com o supremo, eterno Deus,
já que não há outro Deus fora dele (a menos que se decida fazer dois
Deuses: um grande e um pequeno). No entanto, ninguém jamais creu com
maior firmeza, ou afirmou com maior convicção, na divindade de Cristo,
que muitos dos assim chamados arminianos, e assim seguem fazendo até o
dia de hoje. Portanto, o arminianismo (seja o que for) é completamente
diferente do arianismo.
5. A origem da palavra remonta a Jacó Harmens, em latim, Jacobus Arminius, que foi ministro ordenado em Amsterdã e, mais tarde, professor de teologia em Leyden. Tendo estudado em Genebra, em 1591 começou a duvidar dos princípios que lhe haviam ensinado até então. Cada vez mais convencido do erro dos mesmos, quando foi nomeado professor, começou a ensinar e a tornar público o que ele considerava ser a verdade, até falecer em paz no ano de 1609. Poucos anos após a morte de Armínio, alguns fanáticos, liderados pelo Príncipe de Orange, atacaram furiosamente a todos que afirmavam ou consideravam suas ideias. Tendo sido esse modo de pensar formalmente condenado no famoso Sínodo de Dort (menos numeroso e erudito que o Concílio ou Sínodo de Trento, mas tão imparcial como aquele), algumas dessas pessoas foram mortas, outras exiladas, algumas condenadas a prisão perpétua, todos eles perderam seus postos de trabalho e foram proibidos de ocupar qualquer cargo público ou eclesiástico.
6. As acusações apresentadas pelos opositores contra essas pessoas (normalmente chamadas dearminianos) eram cinco: (1) negar o pecado original; (2) negar a justificação pela fé; (3) negar a predestinação absoluta; (4) negar que a graça de Deus é irresistível, e (5) afirmar que é possível que um crente se aparte da graça.
À respeito das primeiras acusações, estas pessoas, se declaram inocentes. As acusações são falsas. Ninguém, nem o próprio João Calvino, afirmou a ideia do pecado original ou da justificação pela fé de maneira mais decisiva, mais clara e explícita que Armínio. Esses pontos estão, por tanto, fora de discussão; há acordo entre ambas as partes. Sobre isso, não há a menor diferença entre o Sr. Wesley e o Sr. Whitefield.
7. No entanto, há uma clara diferença entre os calvinistas e os arminianos em relação aos outros três pontos. Aqui as opiniões se dividem, os primeiros creem em uma predestinação absoluta e os últimos somente numa predestinação condicional. Os calvinistas afirmam que: (1) Deus decretou com caráter absoluto, desde toda a eternidade, que certas pessoas se salvariam e outras não, e que Cristo morreu por elas e por ninguém mais. Os arminianos afirmam que Deus decretou, desde toda a eternidade, tocante a todos que têm sua Palavra escrita, que quem crer será salvo; mas quem não crer, será condenado.[1]Para cumprir isso, Cristo morreu por todos[2], por todos que estavam mortos em seus delitos e pecados[3], ou seja, por todos e cada um dos filhos de Adão, já que em Adão todos morreram[4].
8. Em segundo lugar, os calvinistas afirmam que a graça de Deus que opera para salvação é absolutamente irresistível; que ninguém pode resisti-la assim como não se pode resistir a descarga elétrica de um raio. Os arminianos afirmam que, embora haja momentos em que a graça de Deus atue de maneira irresistível, contudo, geralmente, qualquer pessoa pode resistir (e assim se perder para sempre) a graça mediante a qual Deus desejava outorgar-lhe salvação eterna.
9. Em terceiro lugar, os calvinistas afirmam que um verdadeiro crente em Cristo não pode se apartar da graça. Os arminianos, diferentemente, afirmam que um verdadeiro crente pode naufragar na fé na boa consciência[5]. Creem que o crente não só pode cair novamente na corrupção, mas que essa queda pode ser definitiva, de modo que se perca eternamente.
10. Esses dois últimos pontos, a graça irresistível e a infalibilidade da perseverança, são, sem dúvida, a consequência natural do ponto anterior, a predestinação incondicional. Se Deus decretou com caráter absoluto, desde a eternidade, que só se salvariam determinadas pessoas, isso significa que tais pessoas não podem se opor a sua graça salvífica (pois de outro modo perderiam a salvação), e visto que não podem resistir, tampouco podem se desviar dessa graça. De modo que, finalmente, as três perguntas são reduzidas a uma: A predestinação é absoluta ou condicional? Os arminianos creem que é condicional; os calvinistas, que é absoluta.
11. Acabemos, pois, com toda essa ambiguidade! Acabemos com as expressões que só servem para criar confusão! Que as pessoas sinceras digam o que sintam, e que não se brinque com palavras difíceis cujo significado se desconhece. Como é possível que alguém que não leu uma única página escrita por Armínio saiba quais eram suas ideias? Que ninguém levante a voz contra os arminianos antes de saber o que esta palavra significa, só então saberá que arminianos e calvinistas estão no mesmo nível. Os arminianos tem tanto direito de estar irados com os calvinistas como os calvinistas com os arminianos. João Calvino era um homem estudioso, piedoso e sensato, igual a Jacó Armínio. Muitos calvinistas são pessoas estudiosas, piedosas e sensatas, igual a muitos arminianos. A única diferença é que os primeiros afirmam a doutrina da predestinação absoluta, e os últimos, a predestinação condicional.
5. A origem da palavra remonta a Jacó Harmens, em latim, Jacobus Arminius, que foi ministro ordenado em Amsterdã e, mais tarde, professor de teologia em Leyden. Tendo estudado em Genebra, em 1591 começou a duvidar dos princípios que lhe haviam ensinado até então. Cada vez mais convencido do erro dos mesmos, quando foi nomeado professor, começou a ensinar e a tornar público o que ele considerava ser a verdade, até falecer em paz no ano de 1609. Poucos anos após a morte de Armínio, alguns fanáticos, liderados pelo Príncipe de Orange, atacaram furiosamente a todos que afirmavam ou consideravam suas ideias. Tendo sido esse modo de pensar formalmente condenado no famoso Sínodo de Dort (menos numeroso e erudito que o Concílio ou Sínodo de Trento, mas tão imparcial como aquele), algumas dessas pessoas foram mortas, outras exiladas, algumas condenadas a prisão perpétua, todos eles perderam seus postos de trabalho e foram proibidos de ocupar qualquer cargo público ou eclesiástico.
6. As acusações apresentadas pelos opositores contra essas pessoas (normalmente chamadas dearminianos) eram cinco: (1) negar o pecado original; (2) negar a justificação pela fé; (3) negar a predestinação absoluta; (4) negar que a graça de Deus é irresistível, e (5) afirmar que é possível que um crente se aparte da graça.
À respeito das primeiras acusações, estas pessoas, se declaram inocentes. As acusações são falsas. Ninguém, nem o próprio João Calvino, afirmou a ideia do pecado original ou da justificação pela fé de maneira mais decisiva, mais clara e explícita que Armínio. Esses pontos estão, por tanto, fora de discussão; há acordo entre ambas as partes. Sobre isso, não há a menor diferença entre o Sr. Wesley e o Sr. Whitefield.
7. No entanto, há uma clara diferença entre os calvinistas e os arminianos em relação aos outros três pontos. Aqui as opiniões se dividem, os primeiros creem em uma predestinação absoluta e os últimos somente numa predestinação condicional. Os calvinistas afirmam que: (1) Deus decretou com caráter absoluto, desde toda a eternidade, que certas pessoas se salvariam e outras não, e que Cristo morreu por elas e por ninguém mais. Os arminianos afirmam que Deus decretou, desde toda a eternidade, tocante a todos que têm sua Palavra escrita, que quem crer será salvo; mas quem não crer, será condenado.[1]Para cumprir isso, Cristo morreu por todos[2], por todos que estavam mortos em seus delitos e pecados[3], ou seja, por todos e cada um dos filhos de Adão, já que em Adão todos morreram[4].
8. Em segundo lugar, os calvinistas afirmam que a graça de Deus que opera para salvação é absolutamente irresistível; que ninguém pode resisti-la assim como não se pode resistir a descarga elétrica de um raio. Os arminianos afirmam que, embora haja momentos em que a graça de Deus atue de maneira irresistível, contudo, geralmente, qualquer pessoa pode resistir (e assim se perder para sempre) a graça mediante a qual Deus desejava outorgar-lhe salvação eterna.
9. Em terceiro lugar, os calvinistas afirmam que um verdadeiro crente em Cristo não pode se apartar da graça. Os arminianos, diferentemente, afirmam que um verdadeiro crente pode naufragar na fé na boa consciência[5]. Creem que o crente não só pode cair novamente na corrupção, mas que essa queda pode ser definitiva, de modo que se perca eternamente.
10. Esses dois últimos pontos, a graça irresistível e a infalibilidade da perseverança, são, sem dúvida, a consequência natural do ponto anterior, a predestinação incondicional. Se Deus decretou com caráter absoluto, desde a eternidade, que só se salvariam determinadas pessoas, isso significa que tais pessoas não podem se opor a sua graça salvífica (pois de outro modo perderiam a salvação), e visto que não podem resistir, tampouco podem se desviar dessa graça. De modo que, finalmente, as três perguntas são reduzidas a uma: A predestinação é absoluta ou condicional? Os arminianos creem que é condicional; os calvinistas, que é absoluta.
11. Acabemos, pois, com toda essa ambiguidade! Acabemos com as expressões que só servem para criar confusão! Que as pessoas sinceras digam o que sintam, e que não se brinque com palavras difíceis cujo significado se desconhece. Como é possível que alguém que não leu uma única página escrita por Armínio saiba quais eram suas ideias? Que ninguém levante a voz contra os arminianos antes de saber o que esta palavra significa, só então saberá que arminianos e calvinistas estão no mesmo nível. Os arminianos tem tanto direito de estar irados com os calvinistas como os calvinistas com os arminianos. João Calvino era um homem estudioso, piedoso e sensato, igual a Jacó Armínio. Muitos calvinistas são pessoas estudiosas, piedosas e sensatas, igual a muitos arminianos. A única diferença é que os primeiros afirmam a doutrina da predestinação absoluta, e os últimos, a predestinação condicional.
12. Uma última palavra: Não é dever de todo o pregador arminiano,
primeiramente, nunca utilizar em público ou em privado, a palavra calvinista em
termo de descrédito, tendo em conta que isso equivaleria a por rótulos
ou julgamentos? Tal prática não compatível com o cristianismo nem com o
bom senso ou os bons modos. Em segundo lugar, não deveria fazer tudo o
que está ao seu alcance para impedir que o façam os ouvintes,
demonstrando-lhes que isto é um pecado e uma tolice? Não é, assim mesmo,
dever de todo o pregador calvinista, primeiramente, nunca utilizar em
público ou em privado, a palavra arminianoem termo de
descrédito? E em segundo lugar, não deveria fazer tudo o que está ao seu
alcance para impedir que o façam os ouvintes, demonstrando-lhes que se
trata de um pecado e uma tolice ao mesmo tempo? No caso de já estarem
habituados a fazê-lo, maior empenho e esforço deverá se por para
erradicar essa conduta que, talvez, tenha sido encorajada pelo próprio
exemplo do pregador!
Notas:
[1] Mc 16.16
[2] 2 Co 5.15
[3] Ef 2.1
[4] 1 Co 15.22
[5] 1 Tm 1.19
segunda-feira, 15 de setembro de 2014
Controvérsias a respeito do Reino de Deus
(autor: Bispo José Ildo Swartele de Mello)
Enquanto as discussões das questões tribulacionistas
são bem recentes, em termos da história da Igreja, o debate em torno das
questões milenistas remonta aos primórdios da Igreja. É antigo o debate
entre premilenistas históricos, amilenistas e pós-milenistas. Mas,
recentemente, em meados do século XIX, surge um tipo diferenciado de
premilenismo, conhecido como premilenismo dispensacionalista, que é
pré-tribulacionista e que faz uma rígida distinção entre Igreja e
Israel, o que dará ao seu conceito de milênio um cunho bem judaico, de
acordo com seu sistema literalista de interpretação. É bom que se
diferencie entre premilenista histórico e dispensacionalista para não
incorrer em injustiça. A crítica maior deste trabalho se dirige ao
premilenismo dispensacionalista, pois reconhecemos as seguintes virtudes
no premilenismo histórico: (1) Deus tem apenas um povo, e não dois
povos separados, Israel e Igreja, com dois destinos distintos; (2) o
Reino de Deus é tanto presente quanto futuro; (3) a Igreja passa pela
Grande Tribulação; (4) a Segunda Vinda de Cristo é um evento único e
visível a todos, ocasião em que se dá o arrebatamento da Igreja; (5) os
sinais dos tempos têm se manifestado desde a primeira vinda de Cristo,
mas irão se intensificar à medida que nos aproximamos do dia da sua
Segunda Vinda.i
Entretanto, existem pontos em comuns entre os premilenistas históricos e
dispensacionalistas que estaremos questionando a seguir. Mas, antes,
veja a tabela comparativa entre os distintos pontos de vista mais
conhecidos sobre o Reino de Deus:
Tabela 3 Comparativa – Questões Milenistas
| Amilenismo | Pós-Milenismo | Premilenismo Histórico |
Premilenismo
Dispensacionalista | |
| Povo de Deus | Um | Um | Um |
Dois. Distinção rígida entre Igreja e Israel, com dois planos e destinos distintos...
|
Gde. Trib.
|
Pós-tribulacionismo
|
Pós-tribulacionismo
|
Pós-tribulacionismo
|
Pré-tribulacionismo
|
Gde. Trib.
|
Período tempo indeterminado
antes 2a vinda |
Período indeterminado
antes 2a vinda |
Período tempo indeterminado
antes 2a vinda |
7 anos de duração –
após arrebatamento
|
| 2a Vinda | única fase | única fase | única fase | duas fases |
| 2a Vinda | visível em glória | visível em glória | visível em glória |
Arrebatamento secreto (1a. fase)
|
| 2a Vinda |
Fim da oportunidade de Salvação
|
Fim da oportunidade de salvação
|
Fim da oportunidade de salvação
|
Pessoas são salvas após o arrebatamento durante o período da Gde. Tribul.
|
| 2a Vinda |
p/juízo final novos céus e terra
|
p/juízo final novos céus e terra
|
p/milênio; juízo final e novos céus e terra
|
p/ livrar a Igreja da gde tribulação (1ª. Fase)
p/milênio; juízo final e novos céus e terra (2ª. Fase)
|
| Reino de Deus |
|
|
|
|
| Ressurreição |
Única E Geral
P/Juízo Final
|
Única E Geral P/Juízo Final
|
Duas: (1) dos salvos antes do Milênio e (2) dos demais após Milênio P/Juízo Final
|
Três: (1) dos salvos
no Arrebatamento, (2) dos crentes mortos na Gde. Trib. na 2ª. Vinda
antes Do Milênio e (3) dos infiéis após O Milênio P/Juízo Final
|
Juízo
|
Um único Julgamento Geral e final após a 2ª. Vinda.
|
Um único Julgamento Geral e final após a 2ª. Vinda.
|
Dois Julgamentos: Dos crentes na Segunda Vinda e Juízo final após o milênio.
|
Três Julgamentos: Dos crentes no arrebatamento, dos demais crentes na 2ª. Etapa da 2ª. Vinda, e Juízo final após o milênio.
|
Começaremos levantando algumas objeções ao conceito premilenista,
apresentando também uma interpretação de Apocalipse 20, único texto que
menciona um Reino Milenar, à luz dos claros ensinos bíblicos a respeito
do Reino de Deus. Veremos como a Natureza do Reino de Deus está
intimamente associada à natureza e a Missão de Cristo e do Espírito
Santo. Este capítulo servirá de base para o capítulo seguinte que
tratará da missão da Igreja, que, como Corpo de Cristo que é, se
apresentará como uma derivação natural da Missão de Cristo e do
Espírito.
Para saber mais a respeito sugiro a leitura do estudo: O Milênio Apocalíptico
Para saber mais a respeito sugiro a leitura do estudo: O Milênio Apocalíptico
i Hoekema, Anthony. A Bíblia e o Futuro. Tradutor Karl H. Kepler. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2.ed. 2001, P. 217.
ii Hoekema, Anthony. A Bíblia e o Futuro. Tradutor Karl H. Kepler. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2.ed. 2001, P. 218 e 219.
iii Hoekema, Anthony. A Bíblia e o Futuro. Tradutor Karl H. Kepler. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2.ed. 2001, P. 219.
http://escatologiacrista.blogspot.com.br/2008/02/questes-respeito-do-milnio.html
segunda-feira, 11 de novembro de 2013
Lendo histórico-socialmente textos bíblicos
Lendo
histórico-socialmente textos bíblicos
Osvaldo Luiz Ribeiro
FONTE: www.ouviroevento.pro.br
(esquema gráfico de Hudson Pereira
da Silva)
O jogo que jogo, quando leio textos bíblicos, é o
jogo "hermenêutico" histórico-social. Há outros jogos que podem ser
jogados, quando o assunto é textos. O jogo do direito, por exemplo, ou o da
literatura. O jogo que jogo é o da história. Meu jogo é exegético. Faço
exegese. Que é alguma coisa entre ler e fazer arqueologia.
Imaginei um desenho, e o fiz no quadro-branco.
Queria apresentá-lo aqui, na Internet, e pedi ao meu (então) aluno, Hudson, do
Seminário do Sul, que desenhasse pra mim. Expliquei. Ele ouviu atentamente. E
fez pra mim. O desenho é o seguinte.
No passado, o EVENTO. Alguém escreve um texto para o usar como
instrumento de intervenção social, aplicando-o a outro alguém. Lá, o texto queria dizer uma e apenas uma coisa. Queria fazer uma e uma
única coisa.
|
Desde o passado, na condição de vestígio desse passado, uma narrativa
chega até as mãos do exegeta. É tudo que ele tem: uma narrativa. Sua missão "impossível": converter em texto a narrativa que
tem nas mãos. Levá-la de volta até lá, o passado dela, até aquele dia,
aquele, e não outro. Ressuscitar os mortos, e fazer com que vivam, de novo,
aquele momento. Isso é exegese histórico-social. A exegese é
exumação de cadáveres.
|
Passo a explicar o desenho, e, explicando-o, a
dizer o que considero exegese - exegese histórico-social.
A exegese lê textos. No meu caso, textos bíblicos.
Particularmente, textos do Antigo Testamento. Os textos que a exegese lê são
pedaços do passado. E o são em diferentes sentidos. Os textos são pedaços de
todos os passados em que foram instrumentalizados político-socialmente,
teológico-religiosamente, quando foram lidos, usados, quando fizeram história.
Eu até posso interessar-me, por exemplo, pela "história dos efeitos"
de um texto, pela "história da recepção" de uma determinada narrativa
bíblica. Por exemplo, pode ser estudada a história da interpretação de Gênesis
3, ou, cito aleatoriamente, a parábola do grão de trigo, ou a narrativa do
Servo Sofredor. Não chamaria isso propriamente de exegese. Nem mesmo diria
tratar-se, essa abordagem, necessariamente de um "capítulo" da
exegese. Não apostaria muito na hipótese de que a história dos efeitos de uma
passagem bíblica tenha algo a me dizer sobre o sentido original dessa passagem.
É verdade que um exercício assim é indispensável para que seja descoberto o
momento em que determinada interpretação dessa passagem nasceu: quando foi, por
exemplo, que o Servo Sofredor "virou" Jesus de Nazaré. Mas essa
descoberta dirá algo muito mais de "mim", que interpreto desse jeito,
do que do texto e de sua interpretação original. Concederia a essa atividade
heurístico-epistemológica um papel propedêutico da formação do pesquisador - a
saber: dar-se conta de que as interpretações sucessivas de um texto
sobredeterminam-se ao próprio texto, e corre-se o risco de que estas últimas
acabem sendo tomadas por aquele.
Outro sentido para textos como pedaços do passado é
aquele que o considera um vestígio histórico, um indício, no sentido em que
Carlo Ginzburg usa a palavra "indício", em Mitos, Emblemas e
Sinais. Refiro-me aqui ao momento de produção do texto. É
a esse momento que procuro dar toda a minha atenção. A exegese que faço é
histórico-social por isso: porque ela está metodologicamente interessada,
apenas, no sentido com que o texto foi "armado", "amarrado",
"articulado", "tecido", "tramado". Os sentidos
com que ele foi revestido, lido, instrumentalizado, depois daquele momento
inicial, não me interessam, quando faço exegese.
Falo daquele momento original. Textos não são
fungos. Não nascem ao pé de árvores, sob troncos podres, nas tundras, nas
paredes úmidas. Textos são criações culturais, humanas, intencionais. Se é
humano, é intencional. Não há ato humano que não seja intencional. Intencional,
não é, contudo, "genial". Pode ser, também, "genial" - e há
textos "geniais" no Antigo Testamento. Qualquer pressuposto de que
lidamos com mentes primitivas aí é absolutamente baseado em outros pressupostos
absolutamente infundados. Sendo até também geniais, são, contudo, culturais,
isto é, nascem no cadinho da cultura. Mas não são frutos dela. Articulam-se
nela, com ela, a partir dela, na, da e pela forja pragmática do condicionamento
histórico-social. Mas não é a cultura que age: são agentes humanos os que agem,
práxicos, pragmáticos, ideologicamente despertos, é verdade, mas agentes. Mesmo
quando "pacientes", são agentes. Os textos que produzem são
produzidos, porque são tomados como necessários. Para além de seu
contingenciamento antropológico-cultural, os agentes humanos vivem sob o
esforço de ruptura da placenta noológica da cultura. E a rompem, eventualmente.
E é por isso que há cultura.
Os textos, portanto, nascendo no passado, já
existem sob perspectiva. É o agente operador do texto, chame-se tal agente de
"escritor", "autor", "redator", quem articula o eixo
hermenêutico a partir do qual palavras e frases serão contextualizadas,
enfileiradas em correição, cada uma delas, e todas, caminhando, obedientes, sob
o eixo sintático-pragmático-programático premeditado pela consciência operativa
desse agente-escritor. No texto, nenhuma palavra tem vida própria. A vida dela,
ali, então, assim, depende do eixo hermenêutico (ideológico, teleológico,
pragmático) com que ela, a palavra, ela, a frase, ela, a oração, ela, a
estrutura, foi aprisionada na fala articulada e fechada do discurso
histórico-social. Claro, esse texto, depois, pode virar, ele mesmo, verbete de
um dicionário literário, e sofrer, ele mesmo, multi-perspectivação, ser aberto
por multi-referências hermenêuticas, múltiplas chaves de leitura. Nada muda. Esse
texto, lá, naquele tempo, quando escrito, foi escrito para dizer o que tinha
que dizer, isto é, dizer aquilo para o que foi trazido à luz, isto é, dizer
aquilo que o agente operador do discurso textual tem em mente dizer, e diz, e
fazer, e faz, e faz, dizendo, e diz, fazendo.
Principalmente naquele tempo, tempo não de
leitores, mas de leituras, e públicas, a intenção do agente articulador do
discurso alcançava-se não apenas na escrituração do texto, mas na sua
instrumentalização ideológica, pragmática, em contexto retórico. As leituras
operativas davam-se como parte teleológica da intenção do escritor. Não era
apenas escrever o texto, que ninguém o lerá (salvo exceções). É escrevê-lo, e
lê-lo para seus destinatários, e fazer dessa leitura a aplicação pragmática da
ideologia que o inspira, da teleologia que o determina.
Uma tal noção de "texto", já se vê, está
numa dimensão para além da literatura. Eu diria que ela, a noção, na verdade,
proposta de trabalho, pressuposto metodológico, compõe-se sob o conceito de
"complexidade" (cf. Edgar Morin). O sentido desse texto, assim
tomado, não está na "narrativa", mas na relação perspectivista e
instrumentalizadora entre a intenção do agente operador e o aprisionamento
sintático-narrativo de palavras, frases e orações. Nesse momento, se você
descarta a intenção do agente operador, o "texto" se dissolve. O que
sobra é, apenas, uma "narrativa". Multi-referenciada, isto é, aberta,
acessada, lida, a partir de qualquer outro eixo referencial - e não há leitura
sem eixo referencial -, assume qualquer outro "sentido", que, mais
uma vez, não está na "narrativa", mas na articulação referencial de
uma intencionalidade operativa, pragmática, seja estética (literatura) ou
retórica (jurídica). Textos têm sentido? Não. Textos ganham sentido. Primeiro,
pelo seu "autor", que, no contexto específico do Antigo Testamento,
que tenho estudado dedicadamente, e, assumiria, do Novo Testamento, que tenho
investigado menos dedicadamente, e, arriscaria, durante longo período histórico
(eu diria, até a "invenção" da leitura pessoal como prática
cultural), era garantido pela performance retórica do próprio agente operador
da leitura, ou pelo aparelho operador subordinado. Depois, por todos os
leitores que, apoderando-se da "narrativa", fazem, cada vez, a sempre
mesma pergunta do eunuco de Atos: esse texto, de
que(m) fala ele?, pergunta que deve ser respondida, e será, seja pelo próprio
leitor, seja por alguma instância heterônoma (explícita ou implícita).
Quando leio textos do Antigo Testamento, tento
lê-los, revivendo o seu autor. Mas não só ele, porque o autor não delira para
as estrelas, mas escreve para pessoas concretas. O texto é instrumento de
intervenção social, já disse antes. Sinto-me obrigado, e é
imperioso, a ressuscitar os destinatários do operador do texto. Não é apenas
quem diz, mas para quem. E, aí, não há como fugir: e disse, por quê? E para quê? E mais: a partir de
quê? Como esse agente operador lida com a tradição a partir da qual ele fala?
Como se posiciona, ideologicamente, diante de seus destinatários? Está do lado
deles, e têm, juntos, um referencial positivo ou negativo comum? Sonham juntos,
ou lutam juntos, ou sofrem juntos? Ou, não, antes, coloca-se como adversário de
seus destinatários, conquistador deles, senhor de suas vontades, vidas e
corpos? Ainda, nem uma coisa nem outra, defende-se deles? A relação entre o
autor-operador do texto e os seus destinatários pode ser variadíssima dentro
dessas três possibilidades - convivência eco-simbiótica, retórica quiriarcal,
retórica de resistência.
Menciono os elementos que estão presentes, às vezes
todos, às vezes alguns dentre eles, no momento da criação-operação do texto.
1. autor, autora, autores ou autoras, porque a
autoria pode ser também comunitária, sim. E feminina? Também.
2. a própria narrativa, que, abstraída desse
momento criador-operador, é mera narrativa, mas, nele, é texto, carregado de
pragmática e teleologia.
3. o destinatário, a destinatária, os destinatários
ou as destinatárias. Nesse caso, podem ser cruzadas todas as possibilidades
entre os elementos do primeiro e deste conjuntos.
4. o contexto pragmático. A esse, eu chamo de
EVENTO. O nome de minha página é um tributo e esse momento histórico, e à minha
postura exegética fundamental. EVENTO é o contexto global, completo, o cenário
dentro do qual agem e operam todos os outros elementos constitutivos de EVENTO,
enquanto categoria teórico-metodológico exegética.
5. a percepção que o agente operador do texto tem
do momento - do EVENTO.
6. a decisão de intervir no EVENTO. Onipresente.
Sem esse elemento, o texto não nasceria jamais. O que faz do sujeito
histórico-social um autor-operador de textos é a sua decisão histórico-social de
intervir no evento histórico - para o que produz seu instrumento de intervenção
social, Sua Excelência, o Texto.
7. a tradição comum aos dois elementos
práxicos-operativos do evento ("autor" e "destinatário"),
que constitui tanto uma caixa de disponibilidades retóricas, peças
operacionalizáveis da memória cultural, quanto uma força coercitiva. A relação
dos agente operadores do evento, no evento, é complexa, seja entre si, seja com
a tradição. Há tanto submissão, quanto enfrentamento. Há tanto determinismo,
quanto liberdade.
8. a intenção autoral, mais do que um pensamento,
um projeto. A intenção presente no texto é o equivalente, complexo,
antropológico, do movimento de uma peça no tabuleiro de xadrez: o jogador
estende a mão, toma a peça e, a partir de seu projeto maior de ganhar o jogo,
move, aqui, agora, essa peça, cujo movimento só faz sentido tanto internamente
ao jogo (cavalo anda em L), quanto fora dele, isto é, na estratégia de vitória
planejada pelo enxadrista. Quando digo que um texto tem intenção, não estou
dizendo que um pedaço da mente do escritor está ali, colada, dormindo. O que eu
digo é que uma estratégia de intervenção está, ainda, estruturando a sintaxe da
narrativa, porque é ela que faz da narrativa, texto, isto é, é ela que mantém a
narrativa sempre instalada em seu momento genésico. A pragmática que pariu o
texto ainda está lá. Basta que a narrativa seja lida, novamente, a partir da
estratégia operativa do agente-escritor, e o texto ressuscita.
Isso é o básico. Não se trata nem de uma receita de
bolo. Trata-se de um roteiro. É também na pragmática exegética que os nós se
revelam, e são desvelados.
Isso que vim de dizer está, no desenho,
representado pelo primeiro elemento estilizado: "realidade
histórica". Trata-se do EVENTO. Ele é a única coisa absolutamente real e
histórica, no que diz respeito à narrativa. Na condição de instrumento
ideológico-retórico, a narrativa pode constituir-se por elementos redacionais
imaginados. Seja a mais estapafúrdia fantasia isso que vai na narrativa, o
EVENTO, constituído pelo conjunto da narrativa, quando então texto, mais seu(s)
operador(es)-escritor(es) e mais seu(s) destinatário(s), é absolutamente
histórico. É esse EVENTO a chave para a leitura histórico-social do texto. É
necessário lê-lo aí, no EVENTO.
E esse é o problema da exegese. O que ela tem na
mão, não é o EVENTO. Nem o texto. Texto seria, se a narrativa que o exegeta tem
na mão viesse trazendo consigo, explicitamente, num capítulo do seu manual de
leitura, o evento do qual e no qual ela emergiu. Não é assim que acontece. O
que nos cai nas mãos são narrativas. É, cada uma, o que sobrou de seus
respectivos acontecimentos históricos constitutivos. Todo o mais deles ficou no
passado. Apenas a narrativa, subproduto e, ao mesmo tempo, substrato
operacional do texto, chegou até o exegeta, na condição de vestígio, de
indício. A narrativa é um ser arqueológico, enterrado não debaixo da terra, mas
sob os escombros da História. Filha do Universo, histórico (cf. Prigogine), a
narrativa é, também, histórica. Escondido pela História, o Universo e a
narrativa esperam para serem observados - exumados.
Essa idéia tento ilustrar com o segundo elemento
estilizado: a página em hebraico. É ela o que tem hoje o exegeta. Se vai lê-la
histórico-socialmente, tem de re-inseri-la naquele EVENTO. Se não o fizer,
falhou em sua missão. Se não tentar, sequer entendeu sua missão.
Nesse sentido, o erro mais comum na profissão
exegética, a histórico-social, é render-se à narrativa. Quando a narrativa é
tomada pelo EVENTO, pronto. Está perdido o trabalho. Qualquer outra coisa pode
se fazer assim, e talvez seja até muito interessante, sob outros aspectos. Não
estou dizendo que a única coisa legítima que se pode fazer com uma narrativa é
lê-la histórico-socialmente. Pelo amor de Deus, não sou míope. Quer dizer, sou,
mas só nos olhos. O que estou dizendo é que, se o exegeta é um exegeta
histórico-social, diz-se haver outros tipos (isso já acho discutível - se é
outra coisa que não leitura histórico-social de um texto, tenho dúvidas se o
termo "exegeta" é adequado), repito: se o exegeta é um exegeta
histórico-social, então, e não tem outro jeito, é minha compreensão
profissional, o que ele tem de fazer é re-instalar a narrativa em seu EVENTO de
origem. Em outras palavras: é transformar a narrativa que tem nas mãos, em
texto, no texto que ele foi naquele dia.
Terá de usar a própria narrativa para isso. Sua
missão é uma só: ouvir o texto dentro do EVENTO de que ele é parte
constitutiva. Esse objetivo é constituído por etapas concomitantes e complexas.
Concomitantes, porque são realizadas todas ao mesmo tempo, e, complexas, porque
cada uma delas depende das outras, e, todas, em seu conjunto, dependem de cada
uma, isoladamente, tanto quanto, cada uma, isoladamente, depende do conjunto. É
um paradoxo da complexidade: para entender cada palavra, preciso do todo. Para
entender o todo, de cada palavra. Não posso escolher por onde começo. Tenho que
começar da parte e do todo, ao mesmo tempo, construindo, pouco a pouco, o todo,
pelas partes, e identificando o sentido das partes, pelo todo que vou
construindo.
A exegese é uma tarefa bastante difícil. Exige
muita dedicação. Exige muita atenção. Exige incondicional condicionamento
metodológico. Exige lucidez metodológica. Rigor absoluto consigo mesmo, com as
armadilhas da ideologia pessoal. Menos do que isso não é digno da tarefa. Nem
exegese.
quinta-feira, 7 de novembro de 2013
Esse é pra vc que deseja vasculhar um ambiente inesperado...
Sempre li a Bíblia, mas de um tempo pra cá, ela deixou de ser um mero livro e passou a ser objeto de investigação. O desejo de redescobrir e de me reencontrar na bíblia, não foi atoa, foi um encontro com pessoas especiais, que demonstraram que a forma como lia, ou melhor, os óculos que eu usava não conseguia enxergar profundamente o que desejava, com isso, iniciei uma caminhada e quem quiser ir comigo pode subir e apertar bem o cinto. Em breve postarei textos meus, de professores, de exegetas e textos acadêmicos que falam da bíblia, que dialogam com a cultura, com abordagem séria numa pesquisa histórico-critica e sociológica. Venha, e vamos reencontrar a palavra de Deus.
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